Um homem aos trinta anos desenvolve um interesse por alguma coisa e pergunta a si mesmo e aos seus semelhantes: será tarde demais?

Quando se trata de línguas, existe uma coisa chamada período crítico. Aparentemente, esse é o período em que as pessoas aprendem línguas com maior eficiência. Supostamente ele se daria entre o primeiro ano de vida até mais ou menos o início da puberdade.

Ginastas, fisiculturistas, nadadores... todos esses começam cedo. Para ser grande no esporte é necessário ser grande desde pequeno.

Entretanto, isso não se mostra ser verdade quando se trata de habilidades cognitivas. Línguas, assim como matemáticas, são mais fáceis de se aprender quando velho do que ginástica olímpica. O cérebro é mais maleável que o resto do corpo.

Ora, certamente alguém que faz uma coisa desde pequeno e continua fazendo habitualmente por toda a vida será mais habilidoso do que quem começou vinte anos depois. Entretanto, isso não quer dizer que quem começou vinte anos depois não possa alcançar a excelência. No caso das línguas, não há nenhum indício de que não se possa alcançar a fluência "depois de velho".

Alguns cientistas certas vezes disseram com toda a infelicidade com que é possível dizer algo que "crianças adquirem, e adultos aprendem" língua. Ora, o que é essa aquisição? Aquisição é você pegar uma língua sem estudá-la. Foi assim que você passou a falar a sua primeira língua.

Mas por que crianças adquirem? Porque ela não está tentando aprender. Ela está sendo sutilmente obrigada a falar em determinada língua porque não há nenhuma outra língua sendo falada ao redor dela. É interessante perceber que as pessoas aprendem melhor quando são obrigadas a aprender devido às situações em que se encontram.

Ademais, desde o nascimento até a fluência as crianças se comunicam e ouvem comunicarem entre si por cerca de dois, três anos. Já pensou que chique que as crianças na França falam francês? Ora, mas é óbvio.

Até alguns YouTubers, como o Felipe Neto (como se ele fosse alguma espécie de autoridade...), ousou dizer que "não é possível aprender inglês por osmose". É óbvio que ele vai dizer isso, já que ele é/já foi patrocinado por vários cursos de inglês.

O segredo para aprender línguas é exposição. É possível aprender por osmose, mas melhor do que isso é aprender por contexto.

Adultos têm uma habilidade, entretanto, que a maioria das crianças não têm, e as que têm não costumam usar: o aprendizado consciente.

O período crítico afirma que há uma idade melhor para aprender línguas. Entretanto, quando adultos estudam uma língua estrangeira eles geralmente têm um desempenho melhor que crianças. Por quê? Porque adultos são capazes de cultivar disciplina, de demonstrar compromisso.

Crianças, por sua vez, têm outra vantagem: a brincadeira.

Uma vez li uma postagem de uma mulher que estava aprendendo a tocar violão. Isso nunca saiu da minha cabeça:

"Quando eu tinha onze anos (...) eu não tinha ritmo, não conseguia sincronizar minha língua com meus dedos, era consistentemente agudo, etc. etc. Outras crianças zombavam de mim. Mas meu eu de onze anos não ligava. Meu eu de onze anos praticava, mas ela também pensava que ser capaz de tocar a pantera cor de rosa fazia dela incrível (...)
"Agora eu estou tentando aprender a tocar guitarra. É bem diferente (...) e eu tenho dificuldades (...). Às vezes eu não quero tocar porque eu sei que eu sou ruim na guitarra, e saber que eu tenho habilidades melhores no saxofone tornam essa tarefa ainda mais frustrante.

"Mas então eu lembro que eu preciso pensar como uma criança. (...) Todo pequeno progresso ainda é progresso. Humildade é uma grande parte do aprendizado (...). Esqueça o quanto você não sabe e concentre-se no quanto você ainda tem a aprender -- Isso é divertido! (...)"

Se a gente prestar atenção nesse comentário a gente vê a força que a criança tem sobre o adulto: menos ansiedade, menos cobrança, menos perfeccionismo. O adulto vê que está falhando e se crucifica por não ser um mestre depois de duas horas de prática. A criança por vezes nem liga que está falhando.

Isso é, quando o faz por prazer. Professores têm uma habilidade particularmente especial para esmagar sonhos e destruir autoestimas.É focada na aquisição, no contexto, no aprendizado inconsciente em vez de em decorar tabelas

Crianças costumam adquirir, e adultos costumam aprender, mas tanto a criança quanto o adulto podem aprender tanto pela aquisição quanto pelo estudo formal.

A maioria dos métodos de aprendizado não é tão eficiente porque eles focam só na parte formal. Por causa disso a gente acaba vendo um monte de gente que aprende melhor na internet ou no videogame do que em cursos.

Ao meu ver, a forma ideal de se aprender é majoritariamente informal. É focada na aquisição, no contexto, no aprendizado inconsciente em vez de em decorar tabelas. Na verdade, focar em gramática, memorização e tabelas nos estágios iniciais costuma ser prejudicial.

Isso não quer dizer que cursos ou professores são do mal ou uma perda de dinheiro, mas sim que cursos e professores bons se focam em atividades e em proporcionar contexto para tornar a mensagem compreensível em vez de em decoreba, tabelas de gramática e coisas do gênero. Ao meu ver, aprender o significado das palavras é mais importante do que aprender a ordem. Construir vocabulário é mais importante que gramática -- se você entende as palavras, a gramática você pega só de ouvir as pessoas falando. E se for imperfeito, tudo bem. Seu português é perfeito?

Se você está querendo aprender qualquer habilidade cognitiva aos trinta anos, você pode. Tocar música (até violino!), aprender matemática avançada, aprender a falar inglês (ou árabe) -- essas são coisas que você pode. Não que você não possa aprender ginástica olímpica agora, mas é mais provável você se tornar um campeão mundial de olímpiadas de matemática começando agora do que de esportes olímpicos.



Espero que esse texto tenha sido útil e esclarecedor. Ao longo dele há vários links complementares ao assunto. São de vídeos em inglês, mas todos possuem legendas. Recomendo que os assista.